Diário de Leitura: Celebração da Disciplina (capítulo 1)



Depois de enfatizar a importância da “devoção” na vida cristã. O autor parte para o assunto principal do livro que são as disciplinas espirituais, ou a prática dessa devoção. É importante dizer que quando ele fala de disciplinas clássicas da vida espiritual, refere-se a: jejum, oração, meditação, estudo, adoração, solicitude, serviço e outras.


Capítulo 1: As disciplinas Espirituais: Porta de entrada para a liberdade

Richard Foster inicia esse primeiro capítulo apontando a “superficialidade” como um mal de nossa época* e a sua maior doutrina, a satisfação instantânea, como um problema espiritual.


Como cristãos, precisamos atentar para isso. Às vezes nos preocupamos em conhecer muitos assuntos (até teologia), corremos de um lado para outro (até na igreja), fazemos isso e aquilo, mas tudo superficialmente. “Conhecemos e fazemos” aparentemente, exteriormente, por motivações desconhecidas ou confusas. E isso é um problema.

Precisamos urgentemente ser pessoas profundas. Conhecer, sim; fazer, sim; mas tudo com profundidade, pelas motivações corretas.

O CAMINHO
Ajudando-nos a identificar esse problema, o autor apresenta as disciplinas espirituais não como solução, mas como um caminho para sair da superficialidade. 

O que não será tarefa fácil, pois tão logo pensamos em começar a praticar (ou voltar a praticar) a oração, o jejum, o estudo... Surgem vários obstáculos ou “desculpas” que teremos de vencer antes de avançar. Como por exemplo:


A FALTA DE TEMPO
O desejo de Deus é que as disciplinas espirituais sejam praticadas por seres humanos comuns: pessoas que têm emprego, que cuidam de crianças, que lavam pratos e que retiram o lixo. De fato, a prática das disciplinas é melhor quando ocorre em meio aos relacionamentos que mantemos com marido ou esposa, irmãos e irmãs, amigos e vizinhos. (pg.30)

Ou,

A VISÃO NEGATIVA DAS DISCIPLINAS COMO ALGO PENOSO E ENFADONHO
O contentamento é o tom básico de todas as disciplinas, e o propósito delas é libertar o ser humano da escravidão sufocante ao interesse próprio e ao medo. (pg.30)

Além disso, é fácil cair no engano do exercício meramente mecânico: “As disciplinas espirituais são uma realidade interior e espiritual, e a atitude íntima do coração é de longe mais crucial que a mera atitude mecânica para adentrar a realidade da vida espiritual.” O que não deixaria de ser também uma ação superficial.

Vencidos os obstáculos e desculpas - as vezes até preconceitos - contra exercícios tão simples como orar, jejuar, meditar, estudar etc; é necessário ainda, compreender bem o propósito dessas ações em nossas vidas.

A ESCRAVIDÃO DOS HÁBITOS ARRAIGADOS
Em um subtítulo chamado “A escravidão aos hábitos arraigados” o autor discorre um pouco sobre o propósito das disciplinas. Ele parte da realidade da pecaminosidade humana. Citando o apóstolo Paulo (Romanos 3: 9-18; 7: 5-7) ele explica como o pecado não são apenas atos individuais de desobediência a Deus, mas uma condição que aflige a raça humana. E que essa condição pecaminosa abre caminho por entre os “membros do corpo”, formando o hábitos pecaminosos arraigados.

O mar não precisa fazer nenhum esforço para produzir lama e lodo: ambos resultam de sua movimentação natural. Isso também vale para nós na condição de pecado. A movimentação natural de nossa vida produz lama e lodo. O pecado faz parte de nossa estrutura interna. Não é preciso nenhum esforço especial para produzi-lo. Não é de admirar que nos sintamos presos em armadilhas. (pg.33)

E o método habitual que utilizamos para lidar com o pecado arraigado é: lançar-lhe um ataque frontal. Qualquer que seja o nosso problema – raiva, medo, amargura, glutonaria, orgulho, lascívia, vícios – com toda a força de vontade, determinamo-nos a nunca mais cometer o erro novamente. Oramos por isso, lutamos contra isso e aplicamos nossa vontade nisso. A luta, porém é inteiramente vã, e nos descobrimos outra vez em falência moral, ou pior ainda, tão orgulhosos de nossa justiça externa que “sepulcro caiado” seria uma descrição branda de nossa condição.

Foster é firme: a força de vontade jamais será bem sucedida na luta contra os hábitos pecaminosos profundamente arraigados.

... por meio da vontade as pessoas conseguem, durante certo tempo, efeitos satisfatórios, mas cedo ou tarde chegará aquele momento irrefletido em que a “palavra inútil” escapará, revelando a condição real do coração. Se estivermos cheios de compaixão, isso será revelado; se estivermos cheios de amargura, isso será também revelado. (pg.35)

O QUE FAZER?
Baseando-se na carta aos Romanos e aos Gálatas, Foster diz, que quando perdemos a esperança de obter transformações interiores mediante as forças humanas da vontade e da determinação, ficamos abertos a uma nova e maravilhosa percepção: a justiça interior é uma dádiva de Deus, a ser recebida graciosamente. A necessária mudança interior é obra de Deus, não nossa. Só Deus pode trabalhar do lado de dentro do homem. Não podemos alcançar nem merecer a justiça do Reino de Deus.

Entretanto, mediante essa maravilhosa descoberta, corremos o risco de cometer um grande engano: seremos tentados a acreditar que não há nada que podemos fazer.

Se todos os esforços humanos terminam em falência moral e se a justiça é um dom gracioso de Deus, a conclusão lógica não seria que devemos apenas esperar até que Deus venha e nos transforme? – A resposta estranhamente é NÃO!

Felizmente existe algo que podemos fazer. Podemos nos livrar do dilema, seja das ações humanas, seja da ociosidade.

Deus concedeu-nos as disciplinas da vida espiritual como um meio de recebermos a sua graça. As disciplinas permitem que nos apresentemos diante de Deus, a fim de que ele possa nos transformar.

Assim, a luta contra o pecado corresponde a caminhar numa cordilheira longa e estreita, com um abismo de cada lado. O precipício da direita corresponde ao caminho da falência moral, causada pelo esforço humano para alcançar a justiça. O precipício da esquerda corresponde à falência moral causada pela ausência de esforços humanos. Na cordilheira, porém, existe uma trilha, a das disciplinas espirituais. Essa trilha leva à transformação interior e à cura que buscamos.

O capítulo é encerrado com comentários sobre o perigo das disciplinas se tornarem um conjunto de leis e um instrumento de manipulação e controle das pessoas. O que realmente é algo terrível, contudo, devemos sempre lembrar da promessa de Jesus Cristo, "...eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos." (Mateus 28:20). Ele é o nosso Mestre e Guia sempre presente nessa jornada!  

*

Relendo esse capítulo eu lembrei de uma frase que eu ouvi de um pastor uma vez: "A oração não move a mão de Deus, a oração move os nossos corações." Creio ser essa a ideia que se aplica a todas as disciplinas da vida cristã. Precisamos sair da superficialidade espiritual. Precisamos buscar a Deus - através da oração, jejum, estudo da Palavra, meditação, adoração... - para sermos transformados por Deus à imagem de Cristo.  


*Celebração da disciplina foi publicado no final do século XX.

⃗ Principais referências do capítulo
- Heini Arnold, em "Liberdade de pensamentos pecaminosos"
- John Woolman

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